A alma encantadora das ruas

A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas.

João do Rio, como ficou conhecido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, foi um escritor brasileiro conhecido pelos contos, concentrados nos primeiros anos de 1900, que tratavam da sociedade e, especialmente, do Rio de Janeiro e seus cidadãos.

Em A alma encantadora das ruas, o autor extrai do Rio de Janeiro do início do século XX aquilo que representa o seu cerne: a rua e seus personagens. O autor a glorifica e descreve esse universo – mercadores a gritar, pintores e estivadores, vagabundos e ladrões, os chineses e seu ópio, prostitutas e pedintes –  de uma forma tão atual que, não fossem os parágrafos rebuscados, seria possível imaginar seus textos sendo escritos dias atrás.

É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. Do alto de uma janela como Paul Adam, admira o caleidoscópio da vida no epítome delirante que é a rua; à porta do café, como Poe no Homem da multidão, dedica-se ao exercício de adivinhar as profissões, as preocupações e até os crimes dos transeuntes.

O flâneur é o bonhomme possuidor de uma alma igualitária e risonha, falando aos notáveis e aos humildes com doçura, porque de ambos conhece a face misteriosa e cada vez mais se convence da inutilidade da cólera e da necessidade do perdão.

Eu fui um pouco esse tipo complexo, e, talvez por isso, cada rua é para mim um ser vivo e imóvel.

Trabalhando com usuários no WordPress.com: minha palestra no 12º Curitiba WordPress meetup

No dia 20/07, eu dei uma palestra no 12º Curitiba WordPress meetup onde falei um pouco sobre a Automattic, o meu atual trabalho como Happiness Engineer e sobre o processo de seleção dentro da empresa. Foi uma conversa longa (quase 2 horas intercaladas com ótimas questões) e o pessoal pareceu bastante interessado no trabalho de suporte a usuário.

Entre os tópicos tratados, estavam:

  • A Automattic como uma empresa distribuída
  • Trabalhando com suporte – como é o dia-a-dia de um Happiness Engineer
  • O processo de recrutamento (antes, durante e depois do teste)
  • Trabalho remoto

Abaixo, os slides da conversa:

Mimimi

Quando você rotula algo como mimimi, você faz isso porque já tentou se posicionar dentro da questão abordada ou, na real, só usa a expressão como um eufemismo para “eu tenho preguiça de / não tenho interesse em tentar entender outro ponto de vista”?
 
Sendo a segunda alternativa correta, você pode trocar o mimimi por calar a boca e assumir que pouco lhe importam os motivos alheios. Além de mais honesto, é show de bola ficar quieto em assuntos que não dominamos nem queremos dominar.

Hospedei meu site de 1999 no GitHub

Foi em 1998, se não me falha a memória, a primeira vez que eu acessei a internet de um computador da casa dos meus pais. Inspirado pelo site que meu vizinho e amigo na época mantinha do seu clã de Quake, resolvi dar meus passos. Comecei a dividir meu tempo livre entre jogar basquete, ir ao fliperama, ouvir bandas novas e entender a tal da internet.

Como muitos dos moleques nascidos nos anos 80, tive o Nirvana como banda favorita, então fazer um site sobre Cobain e companhia foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça. Proveniente de uma estrofe de Drain You, chamar o site de Poison Apple foi uma escolha tanto por estima quanto exclusividade: não havia eu encontrado, na época, nenhuma ~homepage~ com esse nome. Comecei a mexer no FrontPage, instalei o PaintShop Pro e corri pro abraço. O conteúdo se resumia a transcrições de revistas, traduções (a sessão Lista de Músicas, por exemplo, foi retirada do The Internet Nirvana Fan Club e alguns textos próprios. A ilegalidade tentava imperar, mas os servidores do FortuneCity removiam religiosamente as mp3 que eu tentava subir.

Incrivelmente, o site ainda está hospedado no Angelfire. E para garantir que ele não se perca, criei um repositório no GitHub, onde posso guardar essa pequena lembrança sem o medo de exclusões não requisitadas. O site, inclusive, já está rodando lá.

Daquela antiga internet é possível encontrar quase tudo: a splash page, os avisos de resolução ideal, o menu-imagem feito com <map>, os frames e, ironicamente, o copyright. Só senti falta do gif giratório.

Nirvana spinning smiley

Pronto, agora tou feliz.

Sabedoria radical, por Ricardo Semler

Na manhã de hoje, parei pra ler o jornal e uma coluna me chamou a atenção. Ela, resumidamente, encorajava o leitor, frente a uma discussão política dentro das redes sociais, a ser adulto: analisar fatos, discutir novas ideias e praticar a empatia. Isso, de acordo com o colunista, elevaria o nível do debate e contribuiria e muito para a criação de um ambiente mais sadio ou, no mínimo, menos nocivo.

Ao abrir, dias atrás, um texto com o título “Se você responde emails após o trabalho, você deveria ter férias ilimitadas” (em inglês), percebi que Ricardo Semler pensou algo assim para a Semco, sua empresa. Tudo lá é tratado como uma relação de adultos para adultos, onde cada um lava a sua louça e fortalece os laços para que o grupo todo esteja em uníssono.

“Todos nós aprendemos a acessar nosso email num domingo à noite e trabalhar de casa. Mas poucos de nós aprenderam a ir ao cinema segunda-feira à tarde.”

Percebi então que esse nome, Ricardo Semler, não me era estranho. Ricardo escreveu, em 2014, sua visão de que nunca se havia roubado tão pouco no país. Na época, o título me chamou a atenção, porém não tanto quanto as chamadas que o acompanhavam, todas com claras inclinações à esquerda: “vejam só um tucano falando de algumas benfeitorias do governo atual”. Tirando o jogo partidário infantil que é gerado por textos assim, a súplica do texto é a mesma do colunista do primeiro parágrafo: por favor, sejamos adultos.

Na conversa abaixo, Ricardo explica como, 30 anos atrás, a Semco começou a mudar a forma de tratar a própria companhia e seus funcionários –  gerenciamento horizontal, transparência pesada, férias e salários definidos pelas próprias pessoas, entre outras tantas coisas legais – e como essa experiência gerou a escola Lumiar, o seu ideal de educação para o fututo. Ele aproveita também para comentar sobre sabedoria e controle, princípios também abordados por Alan Watts em seu livro “A sabedoria da insegurança” (The Wisdom of Insecurity: A Message for an Age of Anxiety, no original). Nele, Watts explica como a nossa necessidade por segurança e controle é o que causa, ironicamente, a sensação de que estamos inseguros. E parece que Ricardo compartilha essa admirável visão.

OS X 10.10 Yosemite Local Development Environment: Apache, PHP, and MySQL with Homebrew

Se você está fugindo do MAMP para usar esta solução com o Homebrew, aproveite para copiar seus bancos antigos (o MAMP os salva em /Applications/MAMP/db/mysql) para /usr/local/var/mysql, o diretório padrão usado a partir de agora.

No terminal, digite:

$ cp -vR /Applications/MAMP/db/mysql/* /usr/local/var/mysql/

Após isso, basta reiniciar o MySQL:

$ brew services restart mysql