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O que é o histrião? Não é o capitão de um navio em águas límpidas. O histrião é uma espécie de esquadrão suicida chamado para ocasiões que se anunciam catastróficas. O histrião é um kamikaze. Não há histriões e não há onda conservadora quando uma sociedade atravessa um consenso conservador. Nesse mar, não há ondas e o dissidente faz papel de lunático ou visionário. Só surgem reativos, histriões, quando brota o dissenso. Ou seja, quando surge um espaço até então desconhecido, inaugurando um novo regime da aparência. Só há onda conservadora onde há linhas de força correndo em sentidos opostos.

(…)

Como se vê, as transformações da sociedade, muitas delas invisíveis e no plano do potencial, podem produzir resultados visíveis muito divergentes. Tem razão quem duvida de que mudanças se concretizem sem uma contrapartida institucional, uma forma perene e identificável que possa assumir seu nome. Mas formas assim não se compram no supermercado. Não estão dadas de antemão. Há descompassos e alternâncias de velocidade que são muito bem manobrados por quem domina os caminhos que já estão abertos. Abrir outros caminhos é tarefa mais árdua, incerta e demorada. Nesse meio-tempo, as emoções fervilham.

Dialética do triunfo conservador

Dois dias em Doi Mae Salong

Às dez da manhã, a mochila estava pronta: duas bermudas, uma camiseta, cuecas e meias, medicamentos e produtos para higiene pessoal, caderno, caneta, computador, celular, câmera, uma garrafa d’água, o biscoito vagabundo que ganhara no ônibus para Chiang Rai e, claro, as duas capas de chuva, uma para a mochila a outra para mim.
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Um pouco sobre Pai, na Tailândia

Pai é uma pequena cidade pertencente a província de Mae Hong Son, oeste da Tailândia. Nos últimos anos, a cidade se tornou uma espécie de Mecca dos mochileiros e morada para vários expatriados, um refúgio da loucura de Bangkok ou da excessiva oferta de passeios e esquemas turísticos de Chiang Mai, distante 3 horas e exatas 762 curvas do distrito.

Como uma típica pequena cidade de vale, Pai é quente, aconchegante e rodeada de belas paisagens. Nela, artistas, pintores, músicos e farangs se misturam especialmente a partir do final de tarde, quando as barracas de comida invadem as ruas e os turistas voltam dos passeios diários – trekking, cachoeiras e campos de elefantes são alguns dos exemplos. Por causa dessas características, Pai também atrai as mais variadas espécies de rastas, hippies e aspirantes a culturas alternativas. Dreadlocks, gente descalça no meio da rua, branquelos vestindo suas calças estampadas com elefantes (assunto que merece um estudo separado) e echarpes sob o desgraçado sol de 32 graus, enfim, toda uma aura levemente forçada que, sorte minha, só é menos absurda por estarmos na baixa temporada.

O centro constitui-se de poucas quadras, todas cheias dos mais diferentes cafés, bares, restaurantes, pousadas e, claro, barracas de comida. Os preços são bem acessíveis – comidas de rua a partir de 20, restaurantes começando em 40 e quartos privados em 100 baht. É possível passar um dia aqui, tranquilamente (hospedagem, duas a três refeições e uma ou outra coisa no mercado), com algo entre 350 e 400 baht, o que se aproxima de uns, 30, 35 reais. Como o álcool será o definidor do seu total gasto em Pai, com cervejas e drinks que começam em 50 baht, evitei colocar essa variável na conta acima. Porém, sinceramente, só gasta muito dinheiro aqui quem realmente quer esbanjar.

Dito isso, deixo aqui umas pequenas dicas sobre o que consegui absorver de Pai.

Alugue uma moto

Os arredores de Pai estão disponíveis pela bagatela de R$ 8 o dia

Os arredores de Pai estão disponíveis pela bagatela de R$ 8 o dia

A melhor forma de conhecer Pai e seus arredores é em cima de uma moto com câmbio automático. Por 100 baht, uns R$ 8, você tem 24 horas pra passear pelo vale e conhecer alguns belos lugares como as cachoeiras de Pambok e Mhor Phaeng, a vila chinesa de Santichon, o pequeno cânion e as fontes de águas termais. O mais importante: se você nunca pilotou uma moto, já venha treinado. A quantidade de turistas com ataduras e pernas avariadas é considerável. Caso não se sinta confiante, é possível alugar mountain bikes e fazer quase todos os passeios de uma forma mais tranquila.

Prestigie as barracas de comida na rua

A Colina dos Hambúrgueres, como vocês podem ver, cobra um pouco a mais pelo passeio

A Colina dos Hambúrgueres, como vocês podem ver, cobra um pouco a mais pelo passeio

Como em toda a Tailândia, não deixe de comer na rua. Espetinhos, samosas, cogumelos, sanduíches, pad thais, comida indiana, curries, fruit shakes, pizzas e outras comidas ocidentais, chás, cafés, insetos e as mais variadas e bizarras frituras estão presentes aqui. Os preços começam em 10 baht, uns R$ 0,80, e podem chegar aos 120 baht, especialmente para as comidas de farang como sanduíches, pizzas e coxinhas de frango com catupiry (mentira, eles não tem coxinha aqui).

Comece a noite cedo

Caipirinha muito boa no Almoust Famous por QUATRO REAIS. Chupa essa manga, Brasil.

Caipirinha muito boa no Almoust Famous por QUATRO REAIS. Chupa essa manga, Brasil.

Não posso dizer como a cidade funciona em alta temporada, mas agora, em agosto e com os militares no poder, as coisas não vão muito longe. Muitas lojas abrem apenas a partir das 17:00 h e não passam das 22:00. Os restaurantes, assim, como as barracas de comida na rua, também dificilmente passam desse horário. Programe-se pra começar tudo mais cedo, especialmente a parte que inclui beber. Os poucos bares que ficam abertos até mais tarde – por padrão, eles fecham meia noite – pagam uma pequena quantia aos policiais para permanecerem assim, e até eles não duram muito. Além disso, a cerveja será quase o dobro do preço, que aqui pode chegar a quase 120 baht a garrafa, uma fortuna quando falamos em sudeste asiático.

Não reserve hospedagem

R$ 12 por uma cabana no centro da cidade com banheiro privado tá é louco de bão

R$ 12 por uma cabana no centro da cidade com banheiro privado tá é louco de bão

Especialmente na baixa temporada, não reserve um lugar pra ficar. Há várias boas hospedagens não listadas em sites como o TripAdvisor, Booking ou Hostelworld. Pegue um lugar relativamente dentro da cidade e dali planeje sua próxima estadia. Pra me contrariar, eu acabei reservando uma tenda a 7 km da cidade, logo ao lado dos campos de elefantes, e foi ótimo. No entanto, é sempre trabalhoso ir e voltar do centro, especialmente com algumas Changs na cabeça. Tenha isso em mente se você quer aproveitar um pouco de tudo.

Faça algum curso bacana

 Khao Soi, a delícia das delícias

Khao Soi, a delícia das delícias

Se tiver tempo, inscreva-se em alguma atividade por aqui. Há inúmeros cursos de ioga, massagem, cozinha tailandesa, muay thai e até mesmo de permacultura. Se tiver interesse, há grandes possibilidades de você descolar um lugar na faixa apenas por ajudar na construção ou limpeza de alguma propriedade por umas 3 horas / dia. Talvez seja o combustível ideal pra mandar seu trabalho à merda.

Smartphones

Gerenciado por três sócios holandeses, um deles casado com uma bonita moça local que embalava sua ainda mais apaixonante filha, o lugar era bem bonito. Apesar do preço um pouco acima do padrão tailandês, a cerveja e a comida (minha primeira pizza em dois meses, se não estou mentindo) eram boas e as cinco doses de Sambuca deixaram o pequeno bar ainda mais interessante.

Estava no balcão com um casal que conhecera há alguns dias, ele desenvolvedor web, ela dona de um recém inaugurado café em Chiang Mai, ambos muito simpáticos. Com o álcool já fazendo efeito, comecei a olhar e observar as pessoas em volta. Parei na terceira mesa: nela, havia uma família ocidental – pai, mãe, dois meninos e uma menina – e na mão de cada membro dessa família um celular. Quando os vi sentados em silêncio, aquelas cinco caras brilhando, marquei o horário. É meio triste, mas já não me espanto mais em saber que pessoas conseguem, inclusive em grupo, ficar mais de quinze minutos com o pescoço pra baixo e o polegarzão comendo solto na tela.

Os filhos, não sei se eles precisam de algo; são outros tempos e, bem, outras prioridades. Para os pais, especialmente por terem vivido em uma época totalmente diferente, tenho algumas recomendações: uma chinelada ou, quem sabe, umas duas ou três doses de Sambuca.

For the love of you

Certa vez, buscando novos discos de funk para ouvir, me deparei com um álbum chamado Darker Than Blue: Soul From Jamdown, uma coletânea de regravações R&B executadas apenas por músicos jamaicanos. Nunca tive o reggae como meu estilo musical favorito, mas versões como a que John Holt fez para For the Love of You, dos Isley Brothers, me pegaram de jeito.

Essa música me faz pensar em coisas boas.

For the love of you by John Holt on Grooveshark

Felipe Neto ao vivo em Portugal

Nota

Que gosto que é ler este tweet 4 anos depois.

Que gostoso que é ler este tweet 4 anos depois.

Importante lembrar que o Felipe Neto era a nossa TV Revolta nas eleições de 2010, exceto, claro, pelo alcance da mensagem propagada, que hoje é muito maior. A desinformação e a falta de interesse por questões mais profundas, todavia, se mantém.

Alerta de spoiler: o país não virou Cuba, mas o Felipe Neto pulou da classe D pra classe A, sem passar pela classe média, falando o que quer contra quem quer. Vejam só vocês em que merda de ditadura vivemos.

“Nós, artistas, somos iguais a todo mundo”

A frase acima é constantemente ouvida quando celebridades são questionadas sobre seus hábitos, manias ou quando, em um pequeno ataque justificado de fúria, se posicionam contra uma violação de privacidade ou algum comentário feito sobre padrões estéticos das quais não necessariamente participam, mas que, no fundo, estão infelizmente sujeitas pelo simples fato de serem pessoas públicas.

Acredito nelas. Exceto por serem admiradas e odiadas em grande escala, terem uma miríade de puxa-sacos a seus pés, de suas vozes e opiniões possuírem um alcance imensurável e de, eventualmente, tentarem uma ou outra carteirada em eventos badalados, elas são como nós: respiram, comem, levam os filhos na escolha, trepam, traem, fumam maconha, sonegam, compram pão e café pro morador de rua, destratam garçons, estudam, vão à igreja etc.

Não deveria, então, causar espanto ouvir Ney Matogrosso falar o que sabe e o que não sabe sobre a vida. Quer dizer, apesar de ser ele Ney Matogrosso, baita vanguardista e peça insubstituível em um dos meus discos brasileiros favoritos, é só alguém igual a todo mundo; sábio em tantas coisas, porém raso e ignorante em um número ainda maior de questões. Alguém que talvez um amigo já tenha bloqueado do feed de notícias do Facebook, alguém cuja opinião um colega já tenha compartilhado no Twitter, duas atitudes tristemente ordinárias neste nosso universo virtual lambuzado em dicotomia.

As opiniões de pessoas públicas nos lembram um pouco das antigas correntes de email que recebíamos, só que agora com a distribuição garantida pelos meios de comunicação. E digamos que não seja muito fácil, assim como com as correntes que sua mãe mandava, ficar alheio a esse tipo de subjetividade, principalmente se você tem interesse em questões sociais. Se não é no seu grande jornal favorito, será no seu jornal independente que você lê, na coluna do jornal independente que você mais odeia ou naquela revista que apoia a oposição. Em algum momento, a opinião de alguém famoso, refutada ou corroborada, chegará aos nossos ouvidos da mesma forma que já fomos, tempos atrás, apresentados ao pacto que a Xuxa fez com o capiroto.

Artistas são iguais a nós, realmente, exceto pela repercussão que suas atitudes costumam gerar. No entanto, repercussão não deve necessariamente implicar em relevância. Aqui, cabe a nós pesquisarmos o que foi amplamente espalhado e irmos atrás do que consideramos verdade. Pra que, quando formos dar nossa opinião ou repassar alguma informação, que seja de forma mais embasada e com um pouquinho mais de zelo.

Citação

Um dos desafios para a sobrevivência da democracia é alijar as ideias que atacam a sua própria condição de existência. E como alijá-las sem suprimir a liberdade de expressão? Há pelo menos dois caminhos complementares.

Primeiro, pela construção e manutenção de uma esfera pública vigilante que defenda e rotinize práticas democráticas, algo que depende da educação política praticada por escolas, jornais, instituições culturais, organizações não governamentais (ONGs), etc. Práticas que seriam facilitadas, por exemplo, pela multiplicação de espaços públicos nas cidades, onde se possa conviver com a diferença e apreciar a pluralidade brasileira.

Segundo, por meio de líderes que não se acuem diante da baixa política, que tenham coragem de arriscar seus cargos em defesa de certos princípios e tenham grandeza para fazer alianças com aqueles que, mesmo adversários, compartilham esses princípios. Quando o medo da derrota eleitoral sequestra essas lideranças, que em silêncio desidratam seus projetos de implementação de direitos e promoção da igualdade, o alarme passa a tocar.

Reféns do bolsonarismo