Uma hora de Melvins ao vivo

Tentei convencer meu amigo Pedro, que já mora fora do país há algum tempo, a desistir do Wacken, o tradicional festival alemão, e dar uma chance ao Hellfest Open Air, marcado para os dias 17 a 19 de junho, na França. Falei que o Wacken deste ano tava parecendo maratona de banda cover em bar de metal, comentário que me obrigou a retrucar as palavras grosseiras que recebi em retorno citando algumas boas apresentações que o Hellfest ofereceria, como Rob Zombie, Ozzy e Iggy Pop com os Stooges. Isso fora Down, Corrosion of Conformity, Melvins, Electric Wizard, Kyuss Lives! e outros nomes de menor importância. Então percebi que estava discutindo sobre festivais de heavy metal, que é meio como debater se é melhor engolir um pastel de Sonho de Valsa ou um crepe suíço recheado com Baton, e isso me fez pensar que o mais interessante a fazer era ficar quieto mesmo.

Espero que esses pouco mais de 60 minutos de Melvins tenham resumido bem o Hellfest. Show grosso, bruto, com dois covers de Alice Cooper (Second Coming & Ballad of Dwight Fry) e uma pequena participação de Phil Anselmo, que não ficou contente apenas em apreciar o show de bico calado e decidiu pular na bateria de Dale Crover pra mostrar que não manja bosta do instrumento.

Hung Bunny / Roman Bird Dog / The Water Glass / Evil New War God / It’s Shoved / Anaconda / Queen / Second Coming / Ballad of Dwight Fry / Sacrifice / Hooch / Honey Bucket / With Teeth / Sweet Willy Rollbar / Revolve / Night Goat

Lee Dorrian é o maior frontman da paróquia

Não chegou a ser um dilema: entre pagar 20 reais a dose de whisky em São Paulo e ter que dividir espaço com fã do André Matos em Varginha, preenchi sem dó a comanda do Manifesto Bar. Pouca gente, lugar pequeno e aquela sensação de que o bar paulista é realmente um lugar bem cagado, desses que fazem competição de melhor guitarrista valendo videoaula autografada pelo Andreas Kisser.

Mas que grande felicidade ter visto o Cathedral ao vivo.

 

White lemon days

Reza a lenda que, lá em 1995, o Pearl Jam comprou algumas horas de satélite (ou alguma parada do tipo, vai saber) para poder transmitir o que foi chamado de Self Pollution Radio, que nada mais era do que uma enorme programação de 4 horas e meia de música da mais alta qualidade. Para a empreitada, a banda resolveu chamar toda aquela maloqueirada de Seattle do final dos anos 80 / começo dos 90 pra conversar, atacar de DJ, trocar figurinhas, fazer um som e, como de costume dessa galerinha da música, usar as mais variadas drogas recreativas. Estavam lá Soundgarden, Mudhoney, o projeto paralelo Mad Season e até Krist Novoselic, ao vivo, para quem quisesse transmitir e quem quisesse ouvir. Classe A.

Aí que eu tinha um bootleg do Pearl Jam exatamente dessa transmissão, comprado naquele Mercado Livre pré-Thiago Tanaka. No final do CD, de lambuja, três músicas do Soundgarden, também do Self Pollution, incluindo uma demo de Fell on Black Days que, de tão diferente da versão original, parecia mais uma raridade qualquer do Budgie que de fato uma música composta pelo Chris Cornell. A surpresa foi encontrar apenas hoje, milênios depois, um registro em vídeo dessa pequena gema.

E o coração se enche mais uma vez de alegria.

 

Dia 18 de março, Bigelf em Curitiba. Ah, teve show do Dream Theater também

Bigelf em Porto Alegre, porque as minhas fotos ficaram um lixo. Fabio Santa Helena, roubei essa imagem do seu Flickr e espero que você não me processe.

— Então, fui ver o Bigelf abrir pro Dream Theater ontem.
— Pô, eu vi eles. Aqui perto do trampo, no hotel Pestana.
— q
— Sim. Uns barbudões, né.
— Sim. *chora*

Considerando que eu não tenho cacoetes de tiete, fica fácil concluir que eu não me toquei que os caras estariam pela cidade. Porque eles almoçam e tal. Precisam dormir. Tomar banho. Que burro. E saber que o tal hotel fica apenas a algumas quadras da minha casa só me fez sentir um pouco mais otário.

O Bigelf foi uma das primeiras bandas que eu ouvi quando descobri que havia vida longe das drogas pesadas. Eles, junto com Electric Wizard, Dead Meadow e Dozer me fizeram continuar gostando dos anos 70, mas sem a bichogrilice tão comum àqueles panacas que adoram fazer manha e dizer que não se faz mais música boa como antigamente. A primeira música que ouvi foi Madhatter, do terceiro disco, Hex. E aí, bem, aí a casa caiu.  Impossível não gostar deles se você tem, entre suas bandas favoritas, nomes como Black Sabbath e Beatles.

Com alguns contratempos que envolvem táxis, oito pessoas dormindo no meu apartamento e um Barcelona x Inter no Pro Evolution Soccer 2010, com vitória do Barcelona, cheguei com meu amigo ao Curitiba Master Hall um pouco depois do que pretendia. Não seria um grande problema se eu não tivesse o costume de esquecer que aquele lugar é uma bosta. Sério. Não é incomum você ficar do lado de fora, numa fila que dobra o quarteirão, esperando os seguranças vagarosamente liberarem a entrada da galera. No entanto, o local faz uma brincadeira interessante: ele rebate a estrutura meia boca, a acústica escrota e a péssima dinâmica de entrada com, veja só, ingressos pela metade do preço pra todo mundo. Sim, você não precisa ser estudante ou um avô. Basta levar um quilo de seu alimento favorito (sal não vale, ok) que você automaticamente paga metade do valor. Isso me leva ao cálculo de que eu gastei 80 reais pra ver seis músicas. Mais barato que ver ator brasileiro pelado em peça de teatro.

O set do Bigelf foi curtíssimo, como era de se esperar. Mas que show do caralho. Som gordo e bruto. Dá gosto ver o Ace Mark destruindo aquela SG. Damon Fox é um gênio e não tem como não achar demais ver aquele camarada cantando e tocando um Hammond e um Mellotron AO MESMO TEMPO. É de ficar vesgo. E enquanto meus dois amigos e eu babávamos com os acordes de Blackball, Money Machine e Disappear, o resto da galera não parecia entender o que faziam aqueles três imbecis pulando enquanto a casa, abarrotada de fãs do Dream Theater, não esboçava ainda nenhuma reação considerável.

Ao fim do show, um cisco entrou no meu olho e eu tive que ir ao fundo do Master Hall, daonde já fomos à caça de camisetas, adesivos ou algo do tipo. Em meio a umas duzentas toneladas de camisetas pretas do Dream Theater, vimos CDs do Bigelf à venda. Quarenta reais. Amigo, 2001 já passou, foda-se se esse CD é importado. Dei um tapa na cara do vendedor bem no momento em que o local começou a tremer. Pelo jeito a apresentação principal iria começar.

De qualquer forma, fica aqui meu agradecimento ao Dream Theater. Se não fosse pelo senhor Mike Portnoy, dificilmente eu teria visto um show do Bigelf na cidade onde moro. E que show, porra, que curto e magnífico show. Obrigado, fera. Você é um estranho tocando bateria, mas mesmo assim, hoje, eu te daria um belo dum abraço.